O quinto dia de audiências da fase de instrução do processo criminal que apura o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, foi marcado por relatos de sobreviventes e moradores atingidos pelo desastre nesta segunda-feira, 09 de março.
Entre as testemunhas ouvidas esteve o sobrevivente Leandro Borges Cândido, que trabalhava no carregamento de vagões de minério nas minas de Jangada e Córrego do Feijão. Ele relatou ter participado de simulados e treinamentos relacionados a possíveis rompimentos de barragem, mas afirmou que a sirene de emergência não foi acionada no dia do desastre. Após a tragédia, ele disse que a única assistência recebida da mineradora Vale foi um plano de saúde, benefício que já não possui mais. O sobrevivente também comentou sobre os efeitos do ocorrido na cidade onde vive. “A tristeza lá é enorme por causa da tragédia. Pela perda de pessoas, todo mundo lá é próximo, conhecido. Difícil passar perto de alguém que não perdeu um familiar”, afirmou.
Outro depoimento foi prestado por Elias de Jesus Nunes, operador mantenedor de saneamento na época do rompimento. Ele contou que havia deixado o refeitório para executar um serviço próximo à barragem quando ouviu um forte barulho e percebeu a lama avançando. De acordo com Elias, a caminhonete em que estava foi atingida e empurrada pela lama, mas ele conseguiu sair do carro e ainda ajudou um operador a deixar uma máquina onde estava.
Já a agricultora Soraia Aparecida Campos contou que perdeu sua produção após o desastre. Ela fazia parte de uma comunidade formada por dez famílias que dependiam da agricultura na região atingida. Segundo Soraia, 42 corpos foram retirados de uma horta próxima à residência onde vivia. A agricultora disse ainda que nunca foi procurada pela Vale para receber informações sobre possíveis riscos de rompimento da barragem e que consequências sociais e financeiras foram enfrentadas após o ocorrido. “Quando você vive da agricultura, você não sabe fazer outra coisa. É assim no interior. Virei cozinheira porque é o que sei”, disse.
O último depoimento do dia foi do sobrevivente Jefferson Custódio Santos Vieira. Na época do rompimento, ele era estudante e perdeu a avó e uma tia, que trabalhavam em uma pousada atingida pela lama. Jefferson contou que ouviu um barulho semelhante ao da energia elétrica sendo interrompida e tentou contato com familiares antes de receber a confirmação de que a barragem havia se rompido. Ao tentar chegar ao Córrego do Feijão, ele disse que encontrou um cenário de destruição. “Meu tio me ligou e falava ‘acabou tudo, não tem mais nada aqui’”, lembrou.
As audiências fazem parte da fase de instrução do processo criminal em que a Vale, Tüv Süd e 15 réus são julgados. A oitiva de testemunhas e sobreviventes são fundamentais para as próximas decisões judiciais relacionadas ao caso.



