Privatização da Copasa trava e acende alerta sobre saneamento em Minas

Adiamento do processo frustra empresas interessadas e amplia debate sobre investimentos, dívida pública e universalização dos serviços nos municípios mineiros.

O processo de privatização da Copasa voltou a entrar no centro do debate político e econômico em Minas Gerais. Segundo reportagem da Veja, o adiamento da operação frustrou empresas interessadas no setor e levou o governo mineiro a reavaliar as condições da oferta. A companhia é vista como uma das principais apostas do governo Romeu Zema para atrair investimentos privados, avançar na universalização do saneamento e ajudar no enfrentamento da dívida pública estadual.

A movimentação ocorre em um momento sensível. O marco legal do saneamento estabelece que, até o fim de 2033, o país deve alcançar atendimento de 99% da população com água tratada e 90% com coleta e tratamento de esgoto. As metas aumentam a pressão sobre estados, municípios e empresas responsáveis pelos serviços.

Em Minas, o governo defende que a desestatização pode acelerar investimentos e ampliar a capacidade de atendimento da Copasa. A tese do Executivo é que o Estado, sozinho, não teria condições financeiras de bancar todos os investimentos necessários para universalizar o saneamento dentro do prazo legal.

Do outro lado, críticos da privatização cobram mais transparência sobre o modelo, os impactos nas tarifas, a manutenção dos contratos municipais e as garantias de atendimento às cidades menores e regiões menos rentáveis. O tema tem impacto direto em municípios da Grande BH, do Vale do Paraopeba e de outras regiões mineiras, especialmente onde ainda há déficit em coleta e tratamento de esgoto.

O que travou o processo

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou, em dezembro de 2025, o projeto que autorizou a privatização da Copasa. A proposta passou em segundo turno por 53 votos a favor e 19 contra, após forte obstrução de parlamentares da oposição.

Apesar da autorização legislativa, a execução da venda encontrou obstáculos. De acordo com informações publicadas pelo portal O Bastidor, a Copasa anunciou em 27 de maio o adiamento do processo, citando “fatores supervenientes”, sem detalhar publicamente quais seriam esses fatores. A companhia informou que novas versões do prospecto preliminar e um cronograma atualizado seriam divulgados após manifestação do Comitê de Coordenação e Governança de Estatais.

O adiamento também ocorreu em meio a questionamentos e monitoramento do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. Segundo o mesmo portal, havia expectativa de anúncio do investidor de referência, etapa considerada decisiva para o avanço da privatização.

Mercado reage e empresas ficam em alerta

A indefinição incomoda empresas do setor de saneamento porque a Copasa é considerada um ativo estratégico. A privatização da companhia vinha sendo acompanhada de perto por investidores, principalmente depois de o governo divulgar detalhes sobre a oferta de ações e a possibilidade de manter uma participação residual, além de uma “golden share”, instrumento que preservaria alguns poderes especiais ao Estado.

No mercado financeiro, a mudança de cronograma foi recebida como sinal de incerteza. Publicações especializadas registraram queda nas ações da Copasa após a frustração com os termos e o andamento da operação.

Na prática, o impasse gera duas dúvidas centrais: se o governo conseguirá manter o interesse de grandes grupos privados e se o novo modelo será suficiente para garantir investimentos sem provocar pressão excessiva sobre tarifas e contratos municipais.

Impacto vai além da venda da empresa

Embora a discussão seja tratada muitas vezes como uma operação financeira, o tema tem efeito direto na vida da população. Saneamento envolve água tratada, coleta de esgoto, tratamento adequado, expansão de redes, redução de perdas e qualidade do serviço.

A própria Copasa afirma, em plataforma institucional, que atende 99,6% de seus clientes com água tratada e 79,4% com esgoto coletado e tratado. O dado mostra que a água está mais próxima da meta legal, mas o esgotamento sanitário ainda exige avanço para alcançar o patamar de 90% previsto até 2033.

Esse é o ponto que mais pesa para as cidades. Municípios com menor capacidade de investimento dependem de modelos que garantam expansão também fora dos grandes centros. Sem isso, o risco é que regiões mais lucrativas avancem mais rápido, enquanto localidades menores continuem enfrentando atraso em obras de esgoto e infraestrutura.

Governo vê privatização como saída; oposição cobra garantias

Para o governo Zema, a privatização é apresentada como alternativa para atrair capital privado, melhorar a eficiência e permitir que Minas avance no cumprimento das metas do saneamento. A proposta também é associada ao esforço de reorganização fiscal do Estado.

Já opositores e entidades ligadas aos trabalhadores do setor afirmam que a venda pode representar risco de aumento tarifário, perda de controle público e enfraquecimento do atendimento em municípios menos rentáveis. Sindicatos também têm questionado a condução do processo e acionado órgãos de controle.

O desafio, agora, será explicar com clareza qual modelo será levado adiante, quais garantias serão dadas aos municípios e como a população será protegida em relação a preço, qualidade e expansão dos serviços.

O que está em jogo para as cidades mineiras

Para a população, a pergunta principal não é apenas se a Copasa será pública ou privada. O ponto central é se o serviço vai melhorar, se as obras vão chegar às cidades que ainda precisam de saneamento e se a conta de água e esgoto continuará cabendo no orçamento das famílias.

Com o processo travado, Minas entra em uma fase de incerteza. A privatização ainda pode avançar, mas o adiamento mostra que a venda da companhia depende de ajustes políticos, técnicos, regulatórios e financeiros.

Até lá, prefeitos, vereadores, consumidores e órgãos de controle devem acompanhar de perto os próximos passos. Afinal, a decisão sobre a Copasa pode definir o ritmo dos investimentos em saneamento em Minas pelos próximos anos.

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