Manifestação do governo Lula ao STF acende alerta sobre futuro do auxílio de Brumadinho

Documento encaminhado pela Presidência defende tese de irretroatividade da PNAB, enquanto lideranças da Bacia do Paraopeba cobram união política para evitar retrocessos na reparação.

A disputa pelo futuro do auxílio emergencial pago aos atingidos pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho ganhou um novo capítulo político nesta quinta-feira (14). Uma manifestação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal pela Presidência da República reacendeu o alerta entre lideranças da Bacia do Paraopeba, que veem risco de enfraquecimento da continuidade dos pagamentos.

Segundo publicação do jornal O Fator, a Advocacia-Geral da União enviou ao STF documentos com posições distintas sobre o tema. Um deles, da área de Contencioso da AGU, admite que a Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens, a PNAB, pode incidir sobre danos ainda em curso. Já a peça encaminhada pela Consultoria-Geral da União, enviada ao Supremo pela Presidência da República, adota uma posição mais restritiva e defende a tese de irretroatividade absoluta da norma.

Na prática, a discussão gira em torno de um ponto central: se a PNAB, aprovada depois do crime da Vale em Brumadinho, pode ou não sustentar a continuidade do auxílio emergencial aos atingidos, considerando que os danos sociais, econômicos e ambientais ainda persistem.

A posição mais restritiva enviada pela Presidência foi recebida com preocupação por representantes locais. Em vídeo divulgado nas redes sociais, lideranças ligadas à pauta dos atingidos afirmaram que o momento exige união entre moradores, prefeitos, vereadores e deputados da Bacia do Paraopeba para pressionar politicamente pela manutenção do direito.

O alerta ocorre em meio à ação movida pelo Instituto Brasileiro de Mineração, o Ibram, no STF. A entidade tenta suspender decisões da Justiça de Minas Gerais que obrigam a Vale a manter o pagamento do auxílio emergencial aos atingidos pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, ocorrido em janeiro de 2019.

Do outro lado, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais defendeu ao STF que o acordo de reparação firmado em 2021 não encerrou todas as obrigações da Vale. Para o TJMG, o próprio acordo deixou de fora danos futuros e supervenientes, o que enfraquece a tese de que a continuidade do auxílio violaria a coisa julgada.

Esse ponto é politicamente sensível. Para os atingidos, a reparação ainda não foi concluída. Para o setor mineral, a retomada dos pagamentos com base na PNAB poderia abrir uma nova frente de obrigações para a Vale. No meio dessa disputa, milhares de famílias da Bacia do Paraopeba seguem dependentes do auxílio para manter parte de sua renda.

A preocupação também envolve a Fundação Getulio Vargas, responsável pela operacionalização dos pagamentos. Segundo as lideranças, o juiz Murilo Sílvio de Abreu teria dado prazo de 15 dias para que a FGV informe se continuará ou não à frente da operação do auxílio emergencial. Em comunicado anterior, a FGV informou que vinha cumprindo determinação judicial para operacionalizar os pagamentos do novo auxílio emergencial até julho de 2026.

Além da continuidade dos repasses, lideranças também defendem a reabertura de pontos físicos de atendimento para os atingidos. A justificativa é que muitas pessoas da Bacia do Paraopeba ainda enfrentam dificuldades de acesso à informação, pagamentos atrasados e dúvidas sobre a situação cadastral.

Nos bastidores, a movimentação amplia a pressão sobre agentes políticos de Minas Gerais. A avaliação de lideranças locais é que o tema não pode ficar restrito ao Judiciário, já que envolve impacto social direto em Brumadinho e em outros municípios atingidos pela lama da Vale.

Agora, a expectativa fica sobre os próximos passos no STF. O processo está sob relatoria do ministro Gilmar Mendes, que poderá decidir se suspende ou mantém os efeitos das decisões da Justiça mineira até o julgamento do mérito da ação.

Para os atingidos, o recado é claro: a disputa pelo auxílio emergencial entrou em uma fase decisiva. Mais do que uma questão jurídica, o caso voltou ao centro do debate político sobre reparação, responsabilidade da Vale e proteção das famílias impactadas pelo maior crime socioambiental de Minas Gerais.

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